Crime semelhante ao ‘caso Isabele’ revolta família de garoto assassinado

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Família do estudante Gustavo Henrique da Silva Macedo, 16, assassinado com um tiro de espingarda calibre 12 no rosto, luta por justiça e que o adolescente de 15 anos que fez o disparo seja punido. Morte ocorreu na noite de 20 de fevereiro deste ano, no assentamento Santo Antônio da Fartura, zona rural da cidade de Campo Verde (131 km ao sul). Este foi o segundo caso em pouco mais de 7 meses no Estado onde a negligência na guarda de armas de fogo resulta em tragédia. Em 12 julho de 2020, a adolescente Isabele Guimarães Ramos, 14, também foi morta em Cuiabá com um tiro no rosto pela melhor amiga, uma adolescente que tinha a mesma idade dela. Mas as semelhanças entre os dois crimes não para por aí. Gustavo, que era estudante do 1º ano do curso Técnico em Agropecuária do campus São Vicente do Instituto Federal de Educação, foi morto pelo irmão de consideração, já que o adolescente J.K.P.S. era filho da madrasta dele. Ambos conviviam há anos.

A irmã de Gustavo, a acadêmica de Direito Nayara da Silva Alves, 21, assegura que a família está empenhada para que, como no caso da adolescente Isabele, a Justiça também alcance o autor do crime cruel contra o irmão. Lutará ainda para que todas as pessoas que contribuíram para que o homicídio ocorresse, ao permitir o acesso de armas de fogo ao jovem, e que tentaram prejudicar a investigação também sejam punidas.

Segundo ela, somente no último mês de julho, depois que foi realizada a reprodução simulada do homicídio, sem a presença do autor do disparo, que apresentou atestado médico alegando falta de condições psicológicas, é que o inquérito foi finalizado e remetido à Justiça.   O crime, que antes era tratado como disparo acidental, agora é tratado como ato infracional análogo ao homicídio qualificado, pela dissimulação do autor e por ter dificultado a defesa da vítima. Nem o adolescente mora no assentamento, nem o avô, apontado como o dono da espingarda usada pelo neto para matar Gustavo.

A advogada Luana Fátima Zapello, que atua na assistência da acusação, destaca o empenho da Polícia Civil da cidade. Lembra que desde o início, testemunhas se sentiam intimidadas pelo avô do autor do disparo, que possui uma certa influência política na cidade. “Mas, apesar das dificuldades, todas as diligências necessárias foram realizadas e perícias, requisitadas. A reprodução simulada do crime, com a utilização de dois atores da mesma altura de vítima e autor, não deixou dúvidas e mostrou a verdade real de que não houve disparo acidental, mas um homicídio qualificado”.

 

Tiro de espingarda desfigura menor

Tiro de espingarda de grosso calibre desfigurou o rosto do estudante Gustavo Henrique da Silva Macedo. A irmã Nayara Alves diz que não teve coragem de olhar o corpo do irmão caçula, pois preferia lembrar dele como o menino alegre que sempre foi. Naquele sábado, 20 de fevereiro, ele estava muito feliz. Tinha recebido a confirmação de que havia sido aprovado e cursaria o segundo ano do curso de Técnico em Agropecuária, que sempre foi seu sonho. Em decorrência da pandemia, ele já aproveitava para dedicar mais tempo a atividades com gado, que era o que gostava. Ele morava com a mãe professora em uma propriedade distante cerca de 7 quilômetros do sítio onde foi assassinado. De acordo com Nayara, a perícia atestou que a morte ocorreu por volta das 18h30. Nesse horário, Gustavo trocava mensagens via whatsapp com a mãe. Ela dizia que já estava indo buscar ele de moto e que iriam a um espetinho para jantar. Ele visualizou a última frase e não mais respondeu.

 

Inveja 

Para a família, o crime foi motivado por inveja, já que o adolescente que fez o disparo sempre foi apontado como problemático. Nunca gostou de estudar não era bem relacionado como Gustavo.

Depoimento de uma testemunha, outro rapaz que passou parte do dia com vítima e autor do crime dá indícios do comportamento do adolescente infrator J.K.P.S., 15. Segundo esse rapaz, J. teria retirado combustível de um dos veículos do avô para abastecer o outro carro que iria usar para levar os amigos a uma cachoeira para passarem o dia. Quando foi flagrado e censurado pelo pai da vítima, ficou irritado e teria dito para o rapaz que iria dar um “tiro na cara do padrasto porque ele era ‘X9’, isto é, delator. Este rapaz confirmou que o adolescente levou a arma para a beira do rio. E quando questionado pelos dois outros rapazes do motivo de levar a espingarda, disse que era para se defender, caso aparecesse uma onça no local e os atacasse.

Depois de retornarem do passeio, mais tarde, essa mesma testemunha estava com a vítima quando o adolescente acusado do disparo surgiu e chamou apenas Gustavo para irem supostamente à casa de outra pessoa. Mais tarde, a testemunha soube que o corpo do amigo foi localizado diante da propriedade em que o adolescente acusado do disparo morava com o avô.

 

Autor e arma não são encontrados no local  

Nem o adolescente autor do disparo que matou Gustavo Henrique Macedo ou a arma usada no homicídio estavam no local do crime. Quem acionou a polícia foi uma tia do autor. Ela alegou que escutou o som do tiro e em seguida se deparou com o corpo da vítima no local, mas não viu mais nada suspeito. Segundo a família, possivelmente o avô dele deu fuga e escondeu a arma.   No velório, que ocorreu no dia seguinte, o adolescente apareceu, mas não encarava os familiares da vítima.

Segundo Nayara Alves, irmã de Gustavo, chegou a ver o adolescente rindo do lado de fora, com outros amigos. Comportamento bastante estranho, já que ambos conviviam juntos há anos.

Somente no dia seguinte ele compareceu à delegacia contando a versão do disparo acidental. Inclusive, apresentou duas versões diferentes, ambas descartadas com os resultados da perícia e reprodução simulada do crime.

Já o avô do acusado chegou a abordar o avô da vítima, no meio da estrada, e abriu o porta-malas do carro onde havia outras três armas de fogo perguntando de forma intimidadora se alguma das armas era a que foi usada no crime. A intimidação com testemunhas chegou ao ponto de policiais precisarem fazer a escolta delas para participarem da reprodução simulada no dia 2 de junho.

Fonte: Silvana Ribas/Gazeta Digital